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Do Chile à Coreia do Sul, muitas eleições relevantes acontecerão em 2017. Só na Europa serão oito, sem contar as regionais e municipais. De todas, a eleição presidencial francesa, cujos dois turnos serão em 23 de abril e 7 de maio (seguida em 11 e 18 de junho pelas eleições parlamentares), é a mais capaz de abalar o mundo.

Em setembro, a Alemanha também vai às urnas, é economicamente mais poderosa e a eleição de Angela Merkel e sua frente conservadora para um quarto mandato não pode mais ser dada como certa. Na segunda-feira 6, uma pesquisa pôs à frente, pela primeira vez, o Partido Social-Democrata, liderado por Martin Schulz, ex-presidente do Europarlamento.

Essa seria, porém, uma alternância de poder dentro das regras usuais do Pós-Guerra. Pode mudar algumas políticas sociais e econômicas e influenciar os rumos do continente, mas dentro dos limites usuais. A ultradireita xenófoba da AfD deve se confirmar como terceiro partido, mas não parece ter chances, ao menos desta feita, de participar de uma aliança governamental.

É diferente o caso da França, onde a ultradireita tem possibilidade real de conquistar a chefia de um Estado quase presidencialista. Isso provavelmente significaria um Frexit e o colapso da União Europeia. Já abalada pelo Brexit e pela crise grega em vias de recrudescimento, não teria como absorver a perda do segundo país mais central a seu projeto e drásticas consequências financeiras e geopolíticas se fariam sentir em todo o mundo antes do fim do ano.

Sua derrota, por outro lado, permitiria ao sucessor de François Hollande e aos demais líderes europeus ganhar tempo para enfrentar os problemas crescentes da organização. Se eles têm alguma ideia sobre como aproveitar essa oportunidade é outra questão.

Marine Le Pen é a favorita para vencer o primeiro turno e, ao contrário do pai, Jean-Marie, em 2002, tem possibilidades de ampliar significativamente sua votação no segundo turno. As raízes fascistas de sua família são notórias. O pai recebeu regularmente colaboracionistas de Vichy e ex-oficiais da SS e insiste em considerar o Holocausto um deslize menor, se tanto.

A filha é mais discreta, mas é opositora feroz do euro e da imigração e seu verniz de civilização é tênue. Na quinta-feira 2, durante uma visita a uma feira de empreendedorismo, o jornalista Paul Larrouturou tentou perguntar à candidata sobre a cobrança pelo secretário-geral do Europarlamento de 300 mil euros por sua contratação irregular de auxiliares pessoais e da Frente Nacional como funcionários fantasmas da instituição. Um dos denunciados, o guarda-costas brucutu Thierry Légier, arrastou o repórter pelo colarinho para fora da sala de exposição.

O candidato da centro-direita, François Fillon, não pôde recorrer ao mesmo argumento ao ser acusado de desviar 900 mil do Parlamento francês, destinados à esposa Penelope e filhos, por serviços jamais prestados. Depois de esbravejar contra os jornalistas e falar de “conspiração” e “golpe de Estado”, acabou por admitir a verdade, mas alegou ser essa uma prática legal e comum e recusou abrir mão da candidatura presidencial.

Talvez funcionasse em outro momento, mas a paciência dos eleitores franceses para tais abusos foi desgastada por dez anos de austeridade e Fillon fez demasiado alarde da suposta integridade para se diferenciar da corrupção hoje notória do ex-presidente Nicolas Sarkozy e outros colegas de partido. Caiu nas pesquisas e deixou de ser o favorito para disputar o segundo turno com Le Pen.

Para quem a quer longe do Eliseu, isso foi providencial. Fillon venceu as primárias do partido Republicanos com um discurso de conservadorismo moral e neoliberalismo intransigente, mas essa mensagem é impopular fora das hostes da direita. Seus partidários esperavam ver os eleitores de centro e esquerda se sentirem obrigados a apoiá-lo, de boa ou má vontade, para evitar a vitória do fascismo.

As pesquisas para o segundo turno de fato o mostram capaz de vencer Le Pen por 56% a 44%, mas isso se confirmaria na realidade? Ante um segundo turno com um Thatcher de calças, Le Pen enfatizaria seu lado populista, ao menos no que se refere aos brancos nativos. Muitos desses acabariam por apoiá-la ou se abster para proteger seus direitos sociais e leis trabalhistas. Some-se a isso o risco de um atentado fundamentalista voltar a despertar as paixões xenófobas na França.

Com a queda de Fillon, o segundo lugar passou a ser de Emmanuel Macron, que deixou o Partido Socialista Francês em 2009 e foi ministro da Economia supostamente técnico e apartidário do governo Hollande de agosto de 2014 a agosto de 2016, quando renunciou para fundar o partido “Em Marcha!” e candidatar-se à Presidência.

Por mais que a mídia insista em tratar “populismo” como sinônimo de “radical” ou “iliberal”, Macron é um populista liberal, capaz de falar às massas por cima de ideologias e partidos. Assim como Alain Juppé, o pré-candidato derrotado por Fillon nas primárias conservadoras, Macron é favorável a reformas liberais com a manutenção de um grau razoável de bem-estar social, bem como a avanços como o direito ao aborto e ao casamento igualitário, atacados por Fillon.

Sarkozy chamou Macron de “um pouco homem, um pouco mulher, a moda do momento, andrógino” e fez circular um boato sobre um suposto caso homossexual do candidato, casado, com Mathieu Gallet, presidente da estatal Radio France, mas é duvidoso se isso teria grande impacto mesmo se a fonte fosse mais crível.

Se não chega a ser a continuidade do governo Hollande, Macron é mais palatável ao centro-esquerda, significaria a continuação do atual social-liberalismo envergonhado com menos vergonha e mais coerência e apresenta uma margem confortável sobre Le Pen nas pesquisas para segundo turno, perto de 65% a 35%.

Resta-lhe um possível obstáculo. As pesquisas publicadas em 7 e 8 de fevereiro indicam 25% a 26% para Le Pen, 21% a 23,5% para Macron, 17% a 20% para Fillon, 14,5% a 15,5% para o socialista Benoît Hamon e 10,5% a 13,5% para Jean-Luc Mélenchon, da Frente de Esquerda, aliança de dissidentes socialistas com o Partido Comunista.

Hamon é um ex-ministro da Educação que saiu do governo Hollande em agosto de 2014 em protesto contra a virada liberal associada à nomeação de Macron. Tem como bandeira uma renda mínima de cidadania de 750 euros mensais, representa a ala esquerda do partido e venceu inesperadamente Manuel Valls, ex-primeiro-ministro de Hollande que, consciente da impopularidade, não se atreveu a tentar a reeleição.

A ala centrista aceitou mal o resultado e tende a cruzar os braços ou apoiar Macron, mas ainda assim Hamon tem perto do dobro dos 7% a 9% de intenções de voto em Hollande antes da desistência oficial e bem mais do que os 10% a 12% de Valls quando era considerado o provável candidato socialista.

Suas posições não são tão distantes daquelas de Mélenchon e, somadas, as duas forças de esquerda estariam no segundo turno no lugar de Macron. A aliança, embora lógica, está longe de ser certa. Mélenchon quer de Hamon uma ruptura clara com o governo Hollande e o afastamento de figuras destacadas da corrente de centro, o que Hamon não parece disposto a conceder.

É mais um exemplo da tendência à autodestruição das esquerdas europeias, incapazes de aderir a uma estratégia comum em relação aos problemas do continente. Tanto os centro-esquerdas tradicionais quanto as novas forças têm dificuldades para explicar o que pretendem.

O Podemos, após ter saído do nada para a condição de segundo partido espanhol em intenção de votos em menos de três anos, pode se despedaçar em seu segundo congresso, a ser realizado em 11 e 12 de fevereiro. Íñigo Errejón, segundo nome do partido, prega uma agenda mais moderada e inclusiva com a qual tenta eleger seguidores para a direção e dividir o comando com o atual líder Pablo Iglesias.

Este ameaça voltar para casa se não puder continuar a decidir os caminhos do partido com sua equipe de confiança, enquanto uma terceira corrente ainda mais à esquerda e menos personalista, “Os Anticapitalistas”, corre por fora.

No poder, o Syriza grego não conseguiu ser coerente com seu discurso radical. Alexis Tsipras capitulou ante a Troika e implodiu seu partido, que dificilmente voltará a ganhar uma eleição. Yannis Varoufakis, segundo nome mais conhecido do seu governo, deixou a política grega para fundar um movimento de reforma da União Europeia, enquanto Zoe Konstantopoulou, ex-presidenta do Parlamento, fundou um novo partido, o “Rumo da Liberdade”.

Com seus princípios humanistas, solidários e pacifistas contraditos pela estrutura antidemocrática e pela ditadura austeritária das elites financeiras, a União Europeia cria para seus progressistas um dilema análogo ao dos críticos de esquerda da União Soviética, igualmente condenados a defendê-la em teoria, mas combatê-la na prática realmente existente.

É uma mensagem pouco compreensível para as massas e talvez para os próprios militantes. Enquadrar Bruxelas e Frankfurt e reformar profundamente as instituições europeias exigiria unificar e mobilizar a vontade popular em escala europeia, apesar das xenofobias, das desconfianças mútuas e do descrédito alimentados pela longa austeridade.

Se houver um caminho para isso, passa pela coincidência de governos de esquerda, ou pelo menos de um centro-esquerda decidido, na França e Alemanha, talvez também Espanha e Itália. Se qualquer desses países cair nas mãos da direita nacionalista, os dias do Tratado de Maastricht estarão contados.

 

Ramon Brandão é colaborador do portal São Carlos Dia e Noite 



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